Reportagem imagética produzida em Marrakech sobre as nuances da Medina, das pessoas e da cultura local.

 

Por Denis Renó

Abril de 2019.

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Prismas de Marrakech

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A medina

Marrakech é uma cidade com muita história. Fotogênica por si mesma, é dividida em duas: a Medina, identificada neste mapa, e o seu entorno, composto por modernas construções e sofisticadas lojas. Mas só é possível sentir Marrakech pelos labirintos da Medina, assim como a cultura local, a religiosidade, a arquitetura, os perfumes.

 

As páginas da reportagem Prismas de Marrakech levam você a um passeio pela Medina, com passagem obrigatória por todos esses pontos de interesse. É provável que ao final a sensação que fique é a de "quero mais", o que é comum, pois Marrakech tem muito a oferecer. Vamos passear por Marrakech?

Arquitetura

Marrakech possui uma arquitetura especial. A cidade é quase totalmente pintada em tom Terracota porque, segundo algumas declarações, essa cor diminui a ação do sol (que na região costuma aquecer acima dos 50 graus, no verão). As mesmas construções eram feitas quase sempre sem janelas, pois aumentava a privacidade dos moradores. Porém, eram abertas internamente, criando um pátio central andaluz presente nos riads (casas marroquinas).

 

Apesar de aparentemente simples, as construções de Marrakech são ricas em beleza. As portas baixas, algumas vezes trabalhadas, provocam uma enorme sensação de mistério sobre o que tem do outro lado. Mistério esse que, quando revelado, provoca surpresa, pois a beleza interna de um riad é fenomenal.

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Labirintos

O maior desafio para quem resolve caminhar livremente pela Medina é encontrar-se no meio da labiríntica cidade antiga. Essa dificuldade de locomoção foi pensada para proteger os moradores de possíveis invasões. Da mesma forma que os labirintos, foram construídas passagens extremamente baixas e estreitas. Dessa forma, a entrada com animais e/ou carruagens era algo impossível. Finalmente, construiu-se uma cidade com portas parecidas, o que impedia o invasor de encontrar endereços específicos.

 

Porém, para o turista, o desafio diminuiu. Ainda que perder-se ao menos duas vezes ao dia seja algo esperado, aplicativos de navegação diminuem o efeito do labirinto. Por isso, ao caminhar nas ruas observamos tantas pessoas com seus smartphones nas mãos. A conexão, na Medina de Marrakech, é sinônimo de sobrevivência, ou geolocalização.

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Religiosidade

Marrocos é um país muçulmano, em sua maioria sunita. Apesar de ser tolerante a cristãos e judeus, o islamismo é a religião oficial do país. Segundo o artigo 6o da Constituição de Marrocos, é crime até mesmo possuir uma Bíblia cristã escrita em língua árabe. Também é proibido o proselitismo de muçulmanos para qualquer outra crença. Além disso, o código penal marroquino proíbe conversões para outras religiões que não o Islamismo.

 

Apesar de todas essas proibições religiosas, o Marrocos continua a ser o pais muçulmano mais tolerante, permitindo até mesmo que uma mulher muçulmana case com um não-muçulmano e protegendo os locais de culto cristãos e judeus, algo que não ocorre em outras nações islâmicas. Ainda assim, é importante respeitar algumas leis e crenças do país, como o uso de vestimentas mais discretas, a proibição de álcool e drogas (apenas alguns locais permitem a venda de álcool, e somente a turistas).

 

Marrakech é marcada por uma infinidade de mesquitas, que se enchem cinco vezes ao dia para as orações, previamente anunciadas em seus sistemas de alto-falantes. A grandiosidade das mesquitas, de acesso proibido aos não muçulmanos, é algo que impressiona.

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As mulheres

Uma imagem marcante na cidade de Marrakech é a figura feminina. As diferenças de costumes e de religiosidade com o mundo ocidental faz com que as vestimentas sejam impatantes, sobretudo nos casos em que a feminilidade fica escondida embaixo das burcas. Mas tudo tem a sua explicação, e isso parece nao incomodar as mulheres, que seguem e respeitam as crenças muçulmanas de diversas maneiras.

 

A vaidade feminina está presente nos detalhes, na escolha dos tecidos, na combinação de cores e, claro, deve ganhar ainda mais destaque por trás de toda essa tecelagem. Tudo isso sem perder a alegria e a feminilidade que diferenciam o gênero.

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Os homens

Ver os homens pelas ruas da Medina é como voltar no tempo. Um retorno secular. A vestimenta masculina se assemelha às das mulheres em diversos aspectos. Os homens acabam por cobrir os cabelos em diversas ocasiões.

 

Mas essa cultura de cobrir-se é justiicada. Ao contrário do que nós, ocidentais, imaginamos, não se trata de machismo. Para os muçulmanos, a beleza é interior. Por fora, devemos ser iguais. Devemos serm mdestos, discretos. Nos arrumamos por dentro. Por isso, homens e mulheres acabam por usar essas roupas.

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As cores

A diversidade de cores de Marrakech também chama a atenção de quem caminha pela cidade. É uma sequência de combinações normalmente indesejadas, mas que no contexto dos labirintos da Medina passa a ser decoração indispensável.

 

A cultura marroquina parece reunir uma diversidade de cores não somente nos lugares. Ela está gastronomia. E dessa (des)combinação toda surgem prismas inesquecíveis, compartilhados nessa fotorreportagem.

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Uma semana na Medina

Como é visitar Marrakech, olhar para os lados, ver um mundo novo, e gostar.

Imagine descer de um avião sem ter ideia do que encontrará. Pior. Sem saber se alguém vai entender você nos momentos mais críticos, como comprar uma água, pedir informação ou mesmo negociar a compra de algum produto. E as placas? Será que existe alguma identificação fora do belo e moderno aeroporto que seja escrita em alfabeto romano? Essas foram as preocupações que me acompanharam até às 23h52 de uma segunda-feira, quando entrei no quarto do riad onde me hospedei em Marrakech, o Color Safrà, no miolo da Medina de Marrakech.

É preciso, entretanto, explicar algumas coisas. Medina é a cidade murada de Marrakech, com ruas labirínticas fechadas para o trânsito de carros durante o horário comercial. Observem: fechada para carros. Bicicletas, motocicletas e carroças transitam o dia todo por essas ruas, e você precisa ter atenção o tempo todo. Do contrário, pode ser atropelado. O riad é a casa típica marroquina. Construída com traços das casas andaluzas, os riads originais não tinham janelas para as ruas, e sim para o pátio central, com portas altas que garantiam uma boa ventilação em dias quentes (no verão, os termômetros de Marrakech atingem até 60 graus celsius). O Color Safrá, riad de propriedade de Gala e Ángel, amáveis espanhóis, possui essa arquitetura de maneira bastante sofisticada. Por fim, o marroquino fala árabe, darija, berbere (em quatro diferentes variações) e francês. Ou seja, tinha tudo para ser um problema, pois mal arranho no francês. Tudo isso me preocupava bastante.

Acordei na terça-feira pronto a desbravar a Medina e a cultura marroquina. Após um belo café da manhã, quando pude experimentar o famoso chá de menta marroquino, comecei a andar pelas ruas da Medina. Nos primeiros momentos, me senti caminhando no bairro de Candelária, no centro histórico de Bogotá. Entretanto, logo tudo foi se modificando, pois a rua em que estava passou a ser mais estreita, coberta por uma treliça de madeira e as placas das lojas passaram a surgir no cenário, testemunhado por diversos marroquinos e suas vestimentas típicas (e não folclóricas, pois eles as usam no dia-a-dia). Nesse momento, encontrei a primeira burca. Na sequência, a segunda burca, ao lado da terceira. Também encontrei homens vestidos com o Djellaba, um manto com capuz que cobre braços, pernas e cabeça. Então me perguntei: mas os homens também cobrem o corpo? Segui caminhando até me deparar com uma mulher coberta da cabeça aos pés com uma túnica toda de cor branca. Procurei saber do que se tratava, e descobri, espantado, que era uma viúva. Os islâmicos sunitas, maioria no Marrocos, dizem que a viúva deve vestir-se totalmente de branco durante os primeiros quatro meses e 28 dias após a viuvez. Nesse tempo, não deve se aproximar de homem algum, pois assim saberão se ela estava grávida quando ficou viúva.

As ruas da Medina oferecem uma experiência única. Encontramos pessoas de todo jeito, com uma simplicidade estampada em suas roupas, envoltos em um mistério que provoca nosso constante pensamento. Não conseguimos nos desligar das perguntas referentes aos mistérios individuais daquele povo, que fala um idioma diferente, veste-se de maneira diferente, come alimentos diferentes, vive diferente, reza de maneira diferente. Ao ver aquilo, a primeira coisa que passa na cabeça é o risco de atentado. Esse é o clichê construído pela mídia ocidental de que os islâmicos são causadores de atentados, da mesma forma que os brasileiros são estigmatizados pela corrupção, o carnaval e o futebol. Não sou corrupto e nem gosto de carnaval ou futebol, apesar de ter nascido no Brasil, da mesma forma que os marroquinos que lá estavam não são terroristas, ainda que a religião oficial do país seja o Islamismo. Por essa razão, é comum escutarmos cinco vezes por dia os chamados das mesquitas, que informam os seus fieis sobre a hora da oração. Nesse momento, a cidade se esvazia, lojas fecham as portas e as mesquitas (várias, por sinal) ficam cheias a ponto de algumas pessoas estenderem seus tapetes à porta e orar virado para Meca ali mesmo. Os paradigmas se quebraram. Passei a observar a cultura marroquina de outra maneira.

Outro acontecimento marcante na Medina é um tanto repetitivo. Na realidade, intensamente repetitivo: perder-se, mesmo com mapas e GPS à mão. Foi o que me aconteceu diversas vezes por dia, durante a semana em que estive na cidade. Era comum entrar por uma rua em busca de um destino e, poucos minutos depois, voltar à mesma rua. Algumas dessas ruas, como a que anda pelo bairro das sete curvas (que, na verdade, possui muito mais do que sete curvas), assustam. São sombrias e labirínticas. Mas não há perigo algum em caminhar por essa região, sobretudo durante o dia. A única coisa que pode ser roubado de quem caminha por lá é o tempo. Mesmo assim, é angustiante se perder por lá. Caso isso aconteça, entre em uma loja e pergunte ao vendedor. Não há problema algum. Mas se por acaso alguém na rua se oferecer para ajudar ou informar que tal lugar está fechado, esqueça e continue andando. Essas pessoas costumam te “ajudar” amavelmente, e depois pedem 20 Euros pela ajuda. Tome cuidado apenas com o que coloca no bolso, pois batedores de carteira têm em toda cidade, mesmo onde roubar turista é crime imperdoável, como o Marrocos.

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Lamentavelmente, o passeio chegou ao final. Após quatro dias caminhando pela Medina, desviando de marroquinos ofertando produtos, comidas e serviços, voltei ao aeroporto e esperei meu voo para casa. A vista da cidade, de longe, provoca uma sensação de nostalgia, de saudade mesmo. Aliás, a palavra saudade jamais seria compreendida em Marrakech. Além de ser exclusiva da língua portuguesa, a saudade nos remete a um tempo que se foi, certamente sem volta. A sensação que tive ao caminhar pela Medina é que o tempo, por lá, parou. Se ele está congelado, não tem porque sentir saudades.

O que impressiona nas ruas da Medina é a quantidade de gente que lá circula. É muita gente em um mesmo lugar. A maioria delas cobertas pelas burcas, as túnicas ou o djellaba. Em meio a tanta gente com o corpo, a cabeça e o rosto, perguntei a um marroquino sobre isso. A explicação foi surpreendente. Segundo o marroquino, o Islamismo prega que as coisas devem ser iguais por fora e bonitas por dentro. Por essa razão, as tradicionais casas marroquinas são todas da mesma cor, terracota, sem janelas e com portas simples. A riqueza está dentro, mas por fora todas são iguais. O mesmo, segundo ele, vale para as pessoas, cobertas por fora, mas bonitas por dentro. É óbvio que há casas bonitas, verdadeiros palácios, sobretudo fora da Medina. Também encontramos portas maravilhosas, ainda que essas sejam minoria se considerarmos as portinhas das ruas da Medina, todas baixas e simples. Confesso que comecei a admirar essa ideia islâmica de ser bonito por dentro. Por fora, todos somos, ou deveríamos ser, iguais. Isso me transporta para pensamentos que me acompanham desde a juventude, como o anarquismo, onde todas as pessoas são iguais e possuem os mesmos direitos e deveres. Lamentavelmente, no mundo ocidental, a igualdade é algo que não existe. As pessoas vestem-se para que os outros possam admirar, compram carros novos e constroem casas novas para mostrarem aos demais as suas posses. Enquanto isso, o interior definha, morre, seca, apodrece. Sabiamente, os islâmicos não pensam assim. Claro que há exceções, como em todo lugar. Mas pelo menos a teoria é sábia.

Mas o que me surpreendeu em Marrakech foi a visita à Maison de la Photographie de Marrakech, com um belo arquivo histórico da região. Nunca imaginei que em uma cidade como essa, dentro de uma Medina, pudesse encontrar fotografias tão belas, algumas à venda (comprei uma bela foto contraluz de um marroquino puxando seu dromedário, de 1940). Tudo isso coroado com uma inesquecível panorâmica da cidade, regada a chá de menta no terraço do edifício. Ao fundo, a visita das montanhas nevadas do Atlas, que possuem neve o ano todo e se transformaram em destino de aventura. Só não se aventure sem o auxílio de guias.

As burcas impressionam à primeira vista. 

As viúvas se destacam nas ruas de Marrakech.

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A Maison de la Photographie é um passeio imperdível.

Fotos, texto e design:

Denis Renó

Realização:

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Financiado por:

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