Será o drone uma nova pós-fotografia?

As reflexões sobre a fotografia e suas transformações nos levam a perguntas e respostas pós-fotográficas. Perguntas essas que se relacionam não somente aos dispositivos tecnológicos, mas também aos olhares, à composição e aos processos. Afinal, a fotografia não se limita ao dispositivo e ao suporte. Como o nome diz, é a escrita com a luz, ou seja, alguém escreve, e de alguma maneira.


Entre tantas transformações, nos deparamos com uma que altera totalmente o espírito da fotografia: o uso do drone. Através do equipamento (o zangão), e da câmera carregada por ele, podemos encontrar olhares bem distintos dos tradicionais. Adquirimos o poder dos "olhos de Deus", que sobrevoa lugares conhecidos e oferecem imagens desconhecidas.

O zangão e a câmera carregada por ele são responsáveis pelos "olhos de Deus". Foto: Denis Renó, 2021.

Mas as mudanças não se limitam aos olhares, e sim aos processos e à relação do fotógrafo com o objeto fotografado. Essas mudanças "transgridem" regras propostas por alguns dos mais importantes fotógrafos da história. Uma delas é a da aproximação, proposta por Robert Capa. Através do drone, não existe aproximação, já que não há fotógrafo segurando a câmera. Temos apenas uma aproximação cognitiva.


Uma mudança conceitual está relacionada ao instante decisivo e a liberdade do tempo, propostos por Henri Cartier-Bresson e Sebastião Salgado, respectivamente. Ainda que a contemplação do cenário seja possível, ele só dura o prazo oferecido pela bateria do drone. Porém, as fotos comumente obtidas pelo drone são panorâmicas em plongée (palavra francesa que significa mergulho), ou seja, não é possível buscar de forma tão profunda o instante decisivo, e nem viver o tempo.


Outra mudança drástica está no suporte. A fotografia, que antes era registrada no filme, e que passou a sofrer críticas quando ocupou disquetes e cartões de memória, muda de novo. Dessa vez, a foto é obtida pela câmera pendurada no zangão e transformada em códigos transferidos do drone para um telefone celular conectado ao controle do aparelho. Ou seja, nem no cartão de memória ela fica. Se fica, para chegar até ele a imagem passa até por ondas de radiotransmissão.


Seja como for, essa é uma realidade já adotada por fotógrafos profissionais. Sem dúvida, trata-se de uma nova fotografia, ou uma pós-fotografia, como propõe Joan Fontcuberta. Ou, como defende Vicente Gosciola, é uma fotografia que resulta da volumetria audiovisual, dessa vez por algo que não podemos ter facilmente: os "olhos de Deus".

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