O instante decisivo é a nossa memória

Há dias que ando a refletir sobre as principais relações entre a fotografia e o audiovisual, nomeadamente por tecnologia digital, mas não só. As relações existem, pois o cinema veio da fotografia. O cinema é a fotografia em movimento. O próprio Henri Cartier-Bresson, certa vez, disse que o cinema documentário nada mais é do que a fotorreportagem em movimento. Mas será que é só isso, simplesmente?


Comecei, então a pensar sobre. E me veio uma pergunta: se é tão simples, como disse Cartier-Bresson, então por que a fotografia impressiona mais do que o vídeo em si? Se pensarmos bem, a imagem que mais marcou sobre o atentado de 11 de Setembro, em Nova York, é a fotografia que mostra uma torre em chamas e a outra com um avião quase chocando-se nela. Sim, uma fotografia, e não um dos milhares de vídeos que registaram todo o atentado. Por que?


Isso acontece porque a fotografia tem o poder de congelar o instante decisivo, enquanto o vídeo regista 30 instantes decisivos por segundo, ou seja, 30 frames por segundo (vale recordar que o cinema em película oferecia 24 frames, ou fotos, por segundo). Os olhos veem os 30 frames de forma tão rápida e natural que o ocorrido não é memorizado. Já a fotografia, com um único frame, eterniza o acontecimento, o instante.


Se pensarmos na obra de Cartier-Bresson, os instantes decisivos existem porque foram registados pela fotografia, o que não aconteceria se o mesmo tivesse construído sua obra pelo vídeo. Pensemos no instante da bicicleta e a escada, feita pelo francês em Hyères, França, em 1932. Se fosse um registro audiovisual, jamais poderíamos observar o movimento da bicicleta em seus detalhes, e muito menos gravar em nossas memórias o que, para Cartier-Bresson, foi um instante memorável.


Hyères, França, 1932 (Cartier-Bresson)
Instante registado por Henri Cartier-Bresson em Hyères, em 1932 (Fonte: Fotógrafo, 2017, ed. SESI-SP).

Diante desse exemplo, e de diversos outros que podemos resgatar, me arrisco a defender que a fotografia é, sem dúvida alguma, uma linguagem narrativa duradoura, permanente e fiel aos detalhes, enquanto o audiovisual (seja ele em cinema ou vídeo) regista o todo e de forma mais próxima ao que Christian Metz define como a linguagem natural dos seres humanos. Os nossos olhos veem em modo audiovisual, enquanto a nossa memória armazena fotografias. Diante disso, a fotografia é realmente a linguagem da memória.

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